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VOCÊ SABIA QUE UMA CAMISA BROOKSFIELD PODE TER SIDO FABRICADA PELA DUDALINA?
Se tem uma coisa que aprendi no dia a dia do brechó e no garimpo de acervo, é que a gente nunca deve subestimar uma etiqueta. Às vezes, aquele pequeno pedaço de tecido costurado do lado de dentro esconde uma história muito maior, mais rica e surpreendente do que a gente imagina.
E foi exatamente isso que aconteceu comigo essa semana. Eu estava fazendo a curadoria de uma camisa masculina clássica, daquelas de botão bem tradicionais da Brooksfield linha Sportive. O tecido estava lindo, o caimento impecável, a costura super firme, o tipo de peça que a gente bate o olho e sente na hora o peso da qualidade.
Aí, seguindo o meu ritual de sempre para olhar a composição e as instruções de lavagem, virei a etiqueta interna. Quando li o texto da fabricação, levei um susto: a etiqueta trazia o nome DUDALINA.
“Gente… será que alguém fez uma montagem aqui? Será que costuraram a etiqueta errada? Será que a peça é fake?” 😂
Admito que, num primeiro momento, ri sozinha e achei esquisito. Mas quem trabalha com moda e garimpo tem a curiosidade aguçada por natureza, né? Em vez de deixar para lá, resolvi investigar e jamais arrancar a etiqueta. E o que era para ser só uma dúvida virou uma verdadeira aula sobre os bastidores da indústria da moda no Brasil.
A Dudalina por trás de grandes marcas
Hoje a gente pensa na Dudalina e lembra logo das lojas próprias, dos botões de madrepérola refinados e do bordado da flor de lis. Só que, bem antes de se consolidar com essa identidade de varejo que todo mundo conhece, a Dudalina construiu uma trajetória gigante como uma das maiores fabricantes de camisas das Américas.
Fundada em 1957, em Luís Alves, Santa Catarina, a empresa cresceu focada na perfeição do corte, na estrutura do colarinho e na durabilidade dos tecidos de algodão. Com tanta capacidade técnica e industrial, ela se tornou a grande parceira de várias marcas conhecidas, produzindo no modelo de private label.
Para quem não sabe, private label significa um modelo de produção no qual uma indústria detentora de alto padrão fabril desenvolve e confecciona produtos sob encomenda para que outra marca coloque seu próprio nome, identidade e posicionamento no mercado. Na prática: a Dudalina entrava com o know-how de costura e a estrutura de fábrica, e a Brooksfield entrava com a assinatura da marca e os canais de vendas!
O que dizem os registros da imprensa:
Uma matéria da Revista Exame (2011) registra claramente que a Dudalina era responsável por confeccionar parte importante das camisas de marcas de peso como Brooksfield, Daslu e Zara.
Outros registros do setor apontam que marcas como a Via Veneto também recorriam à camisaria impecável da fábrica catarinense para compor suas coleções.
Ou seja: aquela etiqueta que inicialmente me fez pensar “isso está errado” acabou me levando para uma parte muito interessante da história da nossa indústria têxtil.
O domínio nas exportações e no mercado internacional
E essa história vai ainda mais longe! A Dudalina teve um papel gigantesco no mercado externo. Registros e dados do setor mostram que, durante o seu ápice de produção, a fábrica chegou a responder por cerca de 70% a 80% de todas as exportações brasileiras de camisas, enviando peças para dezenas de países.
Mais tarde, executivos da própria empresa esclareceram em entrevistas que grande parte dessas remessas para o exterior era feita justamente sob o modelo de private label , produzindo para marcas globais e nacionais, o que justifica totalmente a presença da razão social e do CNPJ do fabricante na etiqueta interna de composição da peça.
Afinal… a minha camisa Brooksfield é Dudalina?
Não significa que a camisa "vire" uma Dudalina na vitrine. Significa que, historicamente, a Dudalina atuou como a fábrica oficial que costurou e confeccionou esse lote para a Brooksfield.
Ou seja: aquele detalhe na etiqueta interna não é um defeito e nem um engano, mas a prova viva de que a peça carrega a qualidade industrial de uma das melhores camisarias que o país já teve!
É por isso que eu amo o garimpo
Quando a gente fala sobre moda circular, não estamos falando só sobre esticar a vida útil de uma roupa ou comprar de segunda mão por sustentabilidade. Tem algo lindo e poético aí no meio: cada peça garimpada é um pedacinho de história, memória, design e arquitetura do vestuário nacional.
Pensar que essa camisa ficou guardada por anos em algum guarda-roupa e que, ao passar pelas minhas mãos, me levou a descobrir tudo isso... é o que faz meu coração bater mais forte na curadoria!
Fica a dica de ouro para o seu próximo garimpo:
Da próxima vez que você encontrar uma peça seminova ou vintage, não olhe só a etiqueta da gola! Crie o hábito de observar:
Composição do Tecido:
Valorize as fibras naturais como 100% Algodão, Linho ou Seda.
Etiqueta de Fabricação / CNPJ ou CGC:
É ali que moram as surpresas sobre quem realmente costurou a peça.
Acabamentos e Aviamentos:
Observe a firmeza dos botões, casas de botão e a estrutura do colarinho.
Códigos e País de Origem:
Ótimos atalhos para entender a época e a coleção da roupa.
Uma camisa, duas histórias
De um lado, a Brooksfield, marca fundada em 1988 e que se tornou referência na moda masculina brasileira.
Do outro, a Dudalina, camisaria fundada em 1957, que durante décadas esteve por trás da fabricação de peças para grandes marcas.
Essa combinação transforma uma camisa aparentemente comum em uma peça com uma história que merece ser contada.
E é justamente isso que torna o garimpo em brechós tão fascinante: não encontramos apenas roupas. Encontramos histórias, marcas, técnicas de fabricação e pequenos pedaços da história da moda.
Observação: até o momento, não encontramos uma fonte confiável que determine exatamente em que ano a Dudalina encerrou a produção para a Brooksfield. Por isso, não atribuímos uma data específica à camisa nem afirmamos que ela seja vintage sem uma identificação mais precisa de sua época.
Durante nossa pesquisa, encontramos outro exemplar anunciado no mercado de segunda mão com a identificação ‘Brooksfield By Dudalina’, reforçando o interesse por esse tipo de peça e mostrando que esses exemplares ainda circulam entre colecionadores e consumidores de moda masculina.
Fontes: Exame 2011,
Monografia 2012 https://ric.cps.sp.gov.br
